MENSAGEM DE UM POETA AMADO
... (2026 - 202... ) - 7º Caderno
(772 a 851)
772 - Maracatu do amor
(ritmo do maracatu)
TUM túmtum tumtúm TUM túmtum tumtúm
TUM túmtum tumtúm TUM túmtum tumtúm
Ma raca-tué doa-mor ô ôô
Ma raca-tué doa-mor ô ôô
TUM túmtum tumtúm TUM túmtum tumtúm
TUM túmtum tumtúm TUM túmtum tumtúm
Ma raca-tué doa-mor ô ôô
Ma raca-tué doa-mor ô ôô
Chegou a Nação nascente do mar
escravizados com tambor a ecoar
ergueram a bandeira Nagô Iorubá
Mãe África, estrelas te viram a
navegar.
Guerreiros do maracatu a dançar
o samba que salva, ó salve Oxalá
das águas profundas emerge Iemanjá
batuque alegria, zabumba, ganzá.
Compasso apitou, maracás e agbê
rufa os tambores, agogô e gonguê
na marcação o canto não pode calar
Brasil africano chacoalha o xequerê
O lê lê lêlê vem cantar o refrão
levanta o estandarte e ergue a
mão
abre caminho na rua a dançar
pisa no chão como um trovão.
Toca o atabaque tum túmtum tumtúm
Ma raca-tué doa-mor ô ôô
resiste no toque no riso e na dor
tum túmtum tumtúm tum túmtum tumtúm…
773 - Ode de um poeta
I
Ó poeta que canta as
dores do mundo
ergue a voz para o
alto como pássaro
reluta corajoso com o
poder das palavras
combate firme o
pranto dos famintos
qual rocha defensora
dignifica a vida livre
e entre o céu e a
terra, o rio e o mar,
depara com o
sentimento mais profundo
com ecos do encanto
que reivindica paz
que segue na luta contínua
por onde trilha
e vai em busca da
causa que te motiva
e ainda estimula o
corpo como semente
que germina a seiva
revigorante
envolvendo todo o
sentimento
do cuidado mútuo
civilizatório.
II
Eis o grande astuto
lírico e peregrino
sutilmente gentil e
austero passarinho
recebe a recompensa
das escritas
contra as guerras das
indiferenças
protege a amada dos
sequestradores
segue o vento apesar
dos perigos
recebe de volta da
terra a resposta nativa
abrange teu
sentimento a todo o povo
espalha a bonança em
revoada
como brasa de anjos
das florestas
que faz renascer a
fênix resiliente
que do barro vivifica
e transforma
apesar dos corações
de pedra
percebe o humanismo
no rosto do Outro.
III
Unido pela pulsação
do sentimento
pelas veredas do
jardim e dos cânticos
prediletos com as
marcas dos passos
lembrando dos
vulneráveis sobreviventes
entrelaça o mundo ao
anúncio profético
rebaixando os tiranos
dos tronos
guia, ó ilustre,
mestre da esperança
os amantes encantados
no engajamento
reconhece a
existência do existente
o ser vivente em
convivência
sendo acolhedor e
hospitaleiro
sabendo do desapego
que conforta
como o esforço do
nascimento
que sente dor e
alegria na dialética da vida.
774 - Linhas de um
diário
Abri a gaveta e
comecei a vasculhar…
roupas, desejos
contidos, pensamentos…
O relógio na parede
não parava de me avisar o tempo infinito.
O momento é fugaz.
Descalço, solfejava
uma música pela sala
fazendo uma
sonoridade dos meus relatos triviais e pertinentes,
contra o vácuo dos
caminhos insanos e desolados que não chegam a nenhuma praia.
Estou vivo! É óbvio!
Não como um adorno
nostálgico sobre um chão ausente, silencioso e trágico.
Mas como alguém amoroso
que segue um futuro incerto engolido pelo tempo.
Meu corpo fala.
Paro para falar com
as plantas chuviscadas no ermo.
Penso no mundo
interior e com a vontade potente.
Vejo minha caricatura
no quadro como um labirinto que reflete a verdade budista do desapego.
Abro a porta de um
trajeto e observo as teias que nos conectam.
Sinto o amanhecer
como uma chave dos ancestrais
e uma força me faz
escrever o que sustenta para nutrir a história.
Como andarilho
semeador da paz sigo em frente
confrontando novas histórias.
Mas quem vai me
ouvir?
775 - O amor é a lei
A sociedade humana
pode ser um dia uma vida fraterna?
Entendo as
complicações e as angústias. Mas enfrento aventurar.
− O amor é a lei.
Sinto a sensação de
liberdade e afeto
quando ando pelo
jardim entre os pássaros.
Meu coração bate
pesado com a leveza das poesias.
Nunca é tarde para
nada enquanto a gente vive.
Assim sendo, aposto
na alteridade, não no anonimato ou na omissão,
para romper com o
sistema que reduz a pessoa em coisa.
Será que não
conseguimos ser do modo que se encontra no demasiadamente humano, com todo o
saber e poder?
Estamos em contexto e
em processo.
Não há espaço para a
passividade ou neutralidade, posto que isso é uma negação existencial.
A profundidade ética,
moral e radical do sujeito é o humanismo em liberdade e fraternidade,
no acolhimento com o
outro e com a natureza.
Portanto, nosso
alimento diário
é que na existência
de cada existente
a missão é pela boa
convivência.
776 - Amárpolis
Quando resolvi seguir para Amárpolis
tomei minha decisão livremente
itinerante numa aventura de curiosidades
buscando a sonhada felicidade
entre rios, cachoeiras e mares
existindo e vivenciando afetos
encontrando-me com a natureza
elevando a estima e o pensamento
sentindo a emoção no corpo inteiro
compartilhando ideias esperançosas
mesmo com os conflitos
que são como adubos na terra.
Fiz uma longa caminhada para Amárpolis
e continuo na travessia desse sentimento
em cada manhã de sol ou de chuva
descortinando cada camada da utopia
entre véus da beleza que encanta
que faz sentir o sabor e o saber da vida
guardado na viagem desse percurso
na passagem estimulante do encontro
compreendendo o significado da essência
tornando o imaginário em realidade
resistindo e vivendo momentos célebres
que dão sentido a cada instante vivido.
777 - Poética
Aqui tem
amor e paixão
terra, água, fogo e ar
O corpo fala
a mente sente a razão
o sentido é ser
Escrito no muro
a denúncia do mundo
a de-cisão
A causa é o que afeta
se faz comoção
transpira arte
A distância é quântica
é transcendental
é tempo-espaço
Essa poética
inspira o instante
a determinação
778 - Deleite
Como fico se não sentir a vida?
Como sentir sem ficar contigo?
Não vivo sem desvendar esse mistério
sem degustar o teu corpo nu
saborear o mel de dois em um
no leito de um rio que encontra o mar
no querer de nossas carências
com o gosto dos abraços
no contorno suave da pele
no espaço do compasso conjugal
mapeando no toque com as mãos
sussurrando no ouvido os segredos
descobrindo o véu do sacrário
nos instantes de entrega total de puro deleite.
779 - Pintura
No teu abraço me encontro como tinta na
pintura
no tempo em que criamos a nossa
arte
no tecido da pele que se une numa tela
despidos do mundo, vestidos de amor.
Teu olhar de estrela sonhadora
brilha e reflete autoconfiante
em nosso espaço rastreando a paisagem
ilustra um cenário de um ateliê.
Como espumas do mar desenhado na areia
escorre pelo corpo o suor desvelador
trazendo a cor do som dos
sentimentos
nos simples gestos de cuidado e
carinho.
As horas pincelam e tingem o espaço
concebendo à vida um momento
surreal
eterniza a imagem do presente
instante
o desenho feito com as mãos amantes.
780 - Alegria
Vou dizer sem receio de julgamento
menos ansiedade e mais alegria
pois a luz que brilha no olhar
é a mesma dos olhos da paz.
O prazer que chega ao sentimento
faz ecoar musicalidade ao coração
favorece o tempo em que se vive
nos gestos simples e sutis.
Uma dança começa com o andado
pelos caminhos da vida a seguir
cruza pontes com diálogo
no embalo contente da satisfação.
781 - delírio
Sob a luz da lua teu corpo quente
no meu se reconhece e queima
no toque da mão que se esconde em
segredo
e o corpo aspira pelas curvas
excitantes
pulsante por dentro e por completo
cresce o sentimento
o calor
o fogo
a sede
o delírio
e o suor escorre em nossa pele
no ritmo compassado
desfazendo barreiras
tabus e defeitos
tua boca com a minha no escuro
tecido veludo
suspira
numa entrega total
e no ápice da devora
o gozo estremece
trançado com respiração
com o fogo que faz renascer
782 - Viagem